terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Surto ostensivo

      Inicio de um ano novo, tudo na mesma, nada mudou apenas o amor deu lugar a outras sensações fúteis, mesquinhas e abomináveis. Inúmeras expectativas, nenhuma perspectiva. A razão perdeu a voz, sentimentos de ontem ainda tomam conta dele. Ser homo sapiens é terrível, um misto de nada com coisa alguma... apenas lixo, escória.
     Num rompante de loucura observa dois copos, um quase cheio de remédios e o outro de vodca. A cabeça girando sem fazer qualquer movimento, pendendo sempre para o lado errado e questiona-se, “tomar o conteúdo de ambos os copos e dar lugar as reações de fraqueza e depressão ou ignorar tudo”? Os olhos loucamente fixos nos copos, na foto dela, na garrafa ainda cheia esperando sua decisão. Flores artificiais o encaravam como se pudessem ou quisessem trocar de lugar e fazê-lo deixar de sentir, de existir enquanto humano. No rádio uma música triste; na língua gosto de álcool, nos pés sofreguidão, nos olhos nada (vazios demais pra perceber qualquer intenção positiva vinda de fora do ego) e no peito uma tempestade – num copo de café quase derramando.
      Horas se seguiram desde que adentrara em casa e começa a reter aquelas imagens alucinógenas, por fim decide ler e se envolver noutra história, quem sabe assim se livrasse da própria. Ledo engano eram apenas frases fictícias, mais artificiais que as flores de seu jardim mórbido. Olha-se no espelho e pergunta: “Você ai do outro lado, por acaso sabe por que algumas pessoas cometem suicídio?” e o reflexo lhe responde: “sim eu sei, é bem simples meu amigo, elas são fracas demais e deixam vencer por tão pouco”. Ele fecha o livro e o joga contra o espelho na intenção de apagar de sua memória aquela resposta tão direta e real, resolve dar um fim a toda aquela história que teve início ainda no útero de sua mãe que por pouco não o abortara, pega os copos e violentamente os leva até o banheiro, joga-os na privada e dá descarga. A garrafa de vodca teria um outro destino assim como ele. Voltou ao quarto, desligou o rádio, apagou a luz e abraçou seu cão como se estivesse se despedindo, no chão ao seu lado estavam a garrafa e uma tesoura. Chutou a garrafa contra a parede, o estardalhaço acorda sua irmã que assustada bate a porta de seu quarto, mas ele não abre e o cão não para de latir. Num instante completo silêncio e então o relógio desperta, já era hora dele acordar.

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