segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

A tua fotografia e as minhas memórias

         Hoje encarei teus olhos como há muito não fazia.
      As sobrancelhas bem feitas sob esses olhos ligeiramente entreabertos, sempre muito atentos a tudo. Os lábios carnudos pintados de vermelho paixão, como costumavas declarar. Passeei curiosamente por tua expressão, na pretensão de adivinhar teus pensamentos até o momento daquele flash, que registrara essa imagem para o deleite de outros olhos. A memória é por vezes falha, mas guarda preciosidades. Notei o azul claro e o branco de sua blusa, recordei-me do dia em que a adquiriu, estavas estonteante de alegria, empolgada com o tão esperado encontro da noite seguinte. Incansáveis planos para que tudo corresse bem, por fim escolhera a roupa mais simples, arrumara os cabelos como de costume, o sapato mais confortável e limpo possível, usara os brincos de sempre, no pulso esquerdo aquele relógio herdado de vosso pai e nenhum anel nos dedos. Perfumara-se e na hora marcada, conforme o combinado com seu amado saíra, mas não sem antes me dar um beijo na testa e dizer: "Não vá dormir tarde, minha querida, sabes que tem responsabilidades com teu futuro, logo cedo." Fiz cara de 'nojinho' e retruquei: pode deixar, apenas divirta-se e não se preocupes comigo. Ela saiu sorrindo.
       Há momentos em que minhas memórias se fazem mais nítidas, como película nova e noutros me perco confundindo as histórias. Naqueles olhos muito atentos que encarei depois de tanto tempo estavam o objetivo de Ser e não de Ter. E pela primeira vez em doze anos não senti vontade de chorar (ora, mas que mentira, estou chorando agora), posso sentir teus olhos sobre mim.

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