Hoje encarei teus olhos como há muito não fazia.
As sobrancelhas bem feitas sob esses olhos ligeiramente entreabertos, sempre muito atentos a tudo. Os lábios carnudos pintados de vermelho paixão, como costumavas declarar. Passeei curiosamente por tua expressão, na pretensão de adivinhar teus pensamentos até o momento daquele flash, que registrara essa imagem para o deleite de outros olhos. A memória é por vezes falha, mas guarda preciosidades. Notei o azul claro e o branco de sua blusa, recordei-me do dia em que a adquiriu, estavas estonteante de alegria, empolgada com o tão esperado encontro da noite seguinte. Incansáveis planos para que tudo corresse bem, por fim escolhera a roupa mais simples, arrumara os cabelos como de costume, o sapato mais confortável e limpo possível, usara os brincos de sempre, no pulso esquerdo aquele relógio herdado de vosso pai e nenhum anel nos dedos. Perfumara-se e na hora marcada, conforme o combinado com seu amado saíra, mas não sem antes me dar um beijo na testa e dizer: "Não vá dormir tarde, minha querida, sabes que tem responsabilidades com teu futuro, logo cedo." Fiz cara de 'nojinho' e retruquei: pode deixar, apenas divirta-se e não se preocupes comigo. Ela saiu sorrindo.
Há momentos em que minhas memórias se fazem mais nítidas, como película nova e noutros me perco confundindo as histórias. Naqueles olhos muito atentos que encarei depois de tanto tempo estavam o objetivo de Ser e não de Ter. E pela primeira vez em doze anos não senti vontade de chorar (ora, mas que mentira, estou chorando agora), posso sentir teus olhos sobre mim.
Há momentos em que minhas memórias se fazem mais nítidas, como película nova e noutros me perco confundindo as histórias. Naqueles olhos muito atentos que encarei depois de tanto tempo estavam o objetivo de Ser e não de Ter. E pela primeira vez em doze anos não senti vontade de chorar (ora, mas que mentira, estou chorando agora), posso sentir teus olhos sobre mim.
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