segunda-feira, 2 de maio de 2011



  




http://sorisomail.com/img/1298153775106.jpg      Hoje tive outro daqueles devaneios, dessa vez foi um tanto diferenciado. Não pensem que é incomum, pelo contrário, é demasiado natural qualquer coisa que saia dessa minha mente repleta de conhecimentos, algo estranho acontecer. Acordei sentindo-me grávido, como posso ser homem e estar carregando outro ser dentro de um ventre que não possuo? Indaguei-me confuso. Tomei o café da manhã como de costume, dois pães do tipo forma e integral com iogurte repleto de aveia, alguns sereais e mel, muito mel. Tinha desejado abacate, odeio abacate logo pela manhã, mas ainda assim preparei uma mistura de leite desnatado, açúcar mascavo e a metade de um abacate em um liquidificador, bati tudo até se tornarem homogêneos. Algo dentro de mim desejava tomar o recipiente inteiro daquela mistura estranhamente familiar, lembrei-me da noite anterior, nada acontecera para sentir-me assim demasiadamente diferente, já era tarde quando adormeci, tinha passado horas no laboratório buscando resultados, respostas às mesmas questões de sempre. Não há nada de estranho em sentir fome logo cedo, embora não seja um habito, contudo, essa sensação de estar alimentando outro ser me assusta e nada, ou quase nada me assusta, desde o colegial quando sofria por usar pouco mais que os 10%  normalmente utilizado pelas pessoas da capacidade cerebral, bom isso é outra história e prefiro não remexer agora. Ás vezes me sinto como se fosse 'Um hoje' e 'Outro amanhã,' posso dizer que como somos mutáveis, sofri “mutações”, é, parece engraçado, mas hoje pela manhã  foi exatamente assim que me senti, um verdadeiro mutante. Não, eu não assisti a nenhum filme que possa ter influenciado de alguma maneira o pensamento de hoje. A sensação de não ser mais fisicamente você mesmo é interessante, sempre ouvi o que as mulheres tinham a dizer, e, elas sempre tem muito a declarar. Hoje sou eu quem tem vontade de fazer declarações e falar pelos cotovelos, assim como àquelas mulheres que tentei interagir em noites de descontração, mas nunca deu certo, porque não conseguia ir à diante, o primeiro encontro era também o último. Eu as ouvia e também tentava falar, pouco e quase nada, é normal, sou mesmo um cara de poucas palavras e muita atitude, embora isso não as convencesse. Muitas vezes tive a ligeira impressão de que essa ou aquela não me levariam tão a sério, a ponto de se permitirem ir pra cama comigo, não pensem que sou virgem, não, eu não sou já faz tempo, e ainda não consigo entender porque raios estou tão feminino hoje. Por que cargas d’água estou sentindo-me como se tivesse um ventre e estivesse carregando um pequeno ser lá dentro? Recordo-me da última mulher que se permitiu me amar e presumo que tenha sido a única até hoje, sem mencionar minha adorável mãezinha. Ela era tão calhiente e fugaz, incompreendida, não se permitia chegar perto, sempre tomava as iniciativas e ao mesmo tempo era tão frágil e delicada. Não tínhamos muito em comum, ou melhor, nada, mas a cama funcionava maravilhosamente bem, isso quando eu tinha disposição física, adorava seus gritos e gemidos de prazer, a satisfação final, ela me devorava... 
        Envolvi-me numa pesquisa complicadíssima e por dias dormi no laboratório da universidade em meio a livros, luvas, lupa, cafeína, computador e curiosidade científica, precisava alimentar meu cérebro que ficava cada vez mais sedento e esqueci-me completamente do compromisso mais importante da minha existência, Hortênia, minha voraz e de gênio forte amada “namorada”, se assim tenho direito de nomeá-la, nem sei mais. Quando me dei conta e voltei para casa não a encontrei, fui até o “nosso” quarto e não havia nenhum vestígio, nenhum sinal de que ela tivera passado por ali, pior que isso, nem o seu cheiro estava mais ali, era como se ela não tivesse passado pela minha vida, como se tivesse sido um sonho bom, como mais um daqueles devaneios que costumo ter. Pus-me a chorar, como há muito tempo não fazia, desde menino não derramava uma lágrima, essa reação orgânico-sensível não me acometia a tanto tempo que fiquei surpreso e por um segundo esqueci o motivo, é, eu sou meio estranho, surpreendo-me com minhas reações como um cientista louco pelo processo das coisas. Findado mais este devaneio me dei conta da gravidade da situação em que me encontrava e fui até a rua para fazer uns telefonemas, já que não possuía linha telefônica em casa, não gosto dessas tecnologias que aproximam uns e distanciam outros, pois bem, com um cartão à mão e a caderneta na outra comecei pelo mais provável, liguei para a casa dos pais dela, mas não sabiam onde ela poderia estar ou simplesmente mentiram-me, em seguida liguei para a melhor e única amiga de Hortênia, ela não era de muitos amigos assim como eu também não, essa amiga revelou-me seu paradeiro, ela havia decidido recomeçar noutro Estado, pedi encarecidamente que me desse o endereço ou algum número de telefone para que pudesse entrar em contato com ela e saber o que se passava dentro daquele lindo crânio. Corri para o aeroporto e dentro de algumas horas estava chegando à rua da casa de uma tia de Hortênia, onde possivelmente estaria hospedada. Essa tia me recebeu quase que a pedradas, ela estava decepcionada com minhas atitudes, indaguei-a sobre que atitudes teriam sido, já que não a conhecia. Disse-me que fui covarde demais para perceber o quanto Hotênia me amava e que sentia o mesmo por ela, pediu-me que fosse embora da cidade e voltasse para a vida de estudioso que havia escolhido e deixasse sua sobrinha em paz, pela primeira vez fiquei sem reação e me acovardei, hoje sei do erro consciente que cometi só não quis enxergá-lo na época. Nunca mais vi nem tive notícias de Hortênia. Acovardamo-nos por temer o desconhecido, embora sempre estivesse buscando coisas novas, descobertas que fizeram de mim um homem unicamente reconhecido como poucos artistas, filósofos e cientistas. Compreendi que a gente aprende mais com os outros e a perda foi fundamental para este aprendizado, sinto falta do que um dia foi "completamente meu" e deixei passar.
        Essa sensação estranha de alimentar outro ser como se estivesse crescendo dentro do ventre que não tenho não é mais um daqueles devaneios que tinha ate conhecer Hortência, é a criatura que vem tomando conta daquele que fui um dia quando ainda estava com ela, essa criatura está cada vez mais presente, me fazendo lembrar o tamanho de meu egocentrismo, simplesmente para manter presente a visão que não fui capaz de ter quando deixei de viver o que todo ser humano necessita, mais que as descobertas e invenções,  tal como as necessidades físicas, o verdadeiro amor.

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